quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

domingo, 5 de setembro de 2010




Palavras

A dúvida vem como o nada
e o vento não leva
alem do hoje.

Se a emoção esquece
a consciência não.

Que importa lembrar
o que ainda não é
se inobtivel e breve
é o instante
que tem habilidades de céu.

O importante é saber que
o dia é quase outro
no silêncio das coisas.

Que a ignorância das pedras
é não terem asas
para pousarem em
telhados alheios.

E quando chove
os olhos se aninham
na voz dos trovoes
por isso o relâmpago é luz
que desencaminha e queima
quando pisca.

O resto são desimportâncias
como quintais, sementes e flores.

Mas o fim não é agora
mesmo que o ponto seja
um cômodo sossego para as frases
é necessário dizer algo mais
que apenas palavras...

Denise Reis

segunda-feira, 14 de junho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010





Quem sou ?

Pelo que sonhei ser
fui angustia , fui dor
fui pedra e fui vidraça
fui criança, fui amor.

Nos versos sem rima
fui poeta, fui cor
nas janelas e pátios
fui vaso sem flor.

Dos desejos que tive
fui barco, fui mar
mas não fui marinheiro
não aprendi navegar.

Fui naufrago sem socorro
fui emoção sem alma
fui pássaro sem asas
fui campo sem calma.

Pelas noites e dias alados
sou quem partiu e não chegou
sou dia sem alvorada
sou eu sem saber quem sou.
Denise Reis


Suicídio

Cá estou sozinha sobre meu gesto...
sem saber ao certo
se o tempo se prolonga
em respeito a minha condição
ou se minha condição é que se degrada
pelo prolongamento do tempo.

Os pormenores que o compõem
são letárgicos; não corrompem
não arrebatam nem revelam
apenas aguardam... o esquecimento ou o perdão.

Cá estou sozinha sobre meu gesto
decidida a não mais dispor
da inocência das penumbras
da desordem reacional das febres
e da clara inutilidade dos verbos
que se perfilam servis.

Que importa o destino da frase
e a força conjugada do verbo
se o que teria que ser não foi.
O que importa o tempo
e a delicadeza com que dizes não
se estou vestida de toda nudez,
bebendo paradoxos seculares
para confessar em metáforas
que cansei de esperar por ti.

Denise Reis

sábado, 12 de junho de 2010


Mergulho no silêncio de tua boca
Profunda é a canção de tua língua.
Denise Reis

Olhos de Pássaros...



Olho o mundo com olhos de pássaros
não há ninhos em suas casas nem janelas em suas dores.
Choro a intuição das portas e o sangue dos jardins.
Sinto que os prenúncios das calçadas
desconhecem caminhos e conduzem
ao sepulcro asfáltico das ruas.

Olho o mundo e me surpreendo
com a sensatez dos becos que, exauridos de fim,
incendeiam silêncios e ardem cânticos felizes.
Beijo flores e transcrevo seus desejos
com palavras de vento e pó.
Na garganta, repousa o pólen da consciência.

Canto o mundo com olhos de semente,
alço raízes e vôo num céu que não é meu.

Denise Reis




ORIGEM

É da raiz de teus horizontes
Que nascem os dias
E translúcidos voam
Para semear luz na terra nua.

É do teu sangue que as cores afloram
Destilando silêncios,
Sufocando vozes, repousando fúrias
Entorpecendo saudades...

É dos teus olhos
Que florescem os segredos
E ardentes cobrem as noites
Cristalizadas em beijos.

É com teu indecifrável enlevo
Que os enigmas se explicam
Que a lucidez cinge saudades
E os sonhos viram canções...

É das tuas entrelinhas
Que a eternidade procede
Entre palavras baldias e fulminantes virgulas
Sulcando orações ainda não murmuradas.


É com tua vigorosa foice
Que os desejos ganham descanso
Estampando flores
Com futuros recém colhidos...

Sim, é com as lâminas do poema
Que o tempo abre doces caminhos
Por onde anônimas transitam
As eloqüências súbitas do amar...

sexta-feira, 11 de junho de 2010


Reconhecimento

Reconheço-me na inconstância das sombras
suspiros débeis na ventania
dor lancinante que não mais soluça
as cinzas desta linguagem fria.

Reconheço-me no hálito azul
útero grávido no brilho dos dias
regalo rompendo estrelas
revelando cintilantes alegrias.

Reconheço-me nas melodias em tom menor
raízes em olhares latentes
acordes florescidos de esperas
na solidão dos amores, presentes.

Reconheço-me nas palavras indomáveis
que na primavera evocam flores
nos horizontes singrados de ocasos
corpo de luz aberto em cores.

Reconheço-me na nudez das entrelinhas
onde verseja a inocência
na branda e despudorada verdade
que na linha desconhece analogia.

Reconheço-me no eco calcinado
no sossego de um grito perdido
sou desejo em vôo alçado
pela força da pedra, vencido.

Denise Reis

Conto

Entre Pecados e Sobremesas


Era domingo, estavam todos sentados à mesa. O almoço tinha o mesmo cheiro gostoso do mormaço e da brotação daquele novembro quente e úmido: ki bebe, carne de porco bem fritinha, arroz branco, feijão com lingüiça e pele de porco, farofa e muita salada, tudo muito bem disposto sobre a toalha branca bordada com Richelleau. Na parede, um quadro da santa ceia rodeado de retratos da família em poses ensaiadas. A fome era muita, mas a tentação dos salgados não era suficiente para desviar meu olhar do prato de arroz com pêssego que aguardava passivamente na mesinha auxiliar.
Calor, gostosuras e uma tarde que prometia banho de chuva, um quadro perfeito se não fosse a oração. Sempre tinha a hora de agradecer a Deus pela comida farta, pela saúde e por mais um dia em família.
Vó Bina comandava a reza, mãos postas, cabeça baixa, olhos cerrados e uma sisudez de rocha que, entre dentes, me repreendia:
- Ana, feche os olhos, baixe a cabeça e reze, senão...
O senão era uma sentença indiscutível, quase um paradoxo ditatorial. Até hoje não entendo como vó Bina, mesmo de olhos fechados, controlava tudo e todos, por certo possuía a dita terceira visão, ou, então, via com os olhos d’alma.
Eu me esforçava para manter a submissa posição enquanto cochichava palavras desconexas, verdadeiros enigmas, refúgios para minha inconformidade e indignação; a vontade era de subir na cadeira e bradar a toda voz:
- Não vou agradecer..., não vou rezar..., não quero mais ir ao catecismo..., não gosto de Deus ...
Se tivesse coragem de expor os sentimentos seria deflagrada uma catástrofe, uma fissão no alicerce familiar, com saldos de culpas, acusações e sentenças nada condescendentes, uma já bem conhecida: ficar em pé no canto da sala de visitas com a boca pulsando pimentas, estas, até menos indigestas que as zombarias dos irmãos mais velhos (Júlio e Pedro que carregavam escapulários no pescoço), a imobilidade funérea das paredes e a privação da sobremesa.
As manhãs eram insuportáveis, mas descartáveis. Afinal, não caberia tanta animosidade dentro de um só coração, porque das oito horas e trinta minutos as dez e quarenta e cinco, era a aula de catequese ministrada por irmã Lurdes num salãozinho ao lado da Igreja. Leituras, cantos, orações e no Pai-Nosso sempre dava mais ênfase ao “livra-nos do mal”, mas não havia subterfúgios. Por fim, padre Aurélio chamava a todos até a tribuna das penitências - isso tudo era certo - nunca faltava.
Por ordem alfabética eu era a primeira da lista de chamada e quase tinha uma síncope quando avistava a silhueta forte e imponente que surgia na porta que com voz firme e solene, bradava:
- Aninha vamos começar!
Minha alma, momentaneamente, se ausentava, fugir... fugir...fugir..., mas para onde se Deus vê tudo em todos os lugares? Se não havia nem caminhos, nem refúgios no reino de Deus pai todo poderoso. Acuada, repetia em pensamento:
- “Seja feita vossa vontade assim na terra como no céu”.
A caminho do confessionário, um passo à frente e dois atrás, tentava imaginar o inferno, tão horrível como pintavam porem, o máximo que conseguia era compará-lo às pimentas, ardido, mas suportável. Na verdade a imagem de Deus e do diabo me pareciam tão semelhantes e confusas, remetendo a uma espécie de dualismo existencial: morrer, ir para o céu ou para o inferno; ou viver ocultando a inconformidade entregue ao suicídio diário e inevitável dos dias.

Já no confessionário, padre Aurélio perguntava:
- Aninha quais os teus pecados da semana?
Com a voz embargada e o corpo trêmulo, respondia gaguejando:
-Na.. na..não pequei padre.
A réplica vinha, imediatamente, em tom antagônico
- Já falei Ana, o verdadeiro cristão é aquele que peca e expia seus pecados entregando-os a Deus, não tenha medo, Deus é nosso Pai, nosso mestre, ele sempre perdoa... venha, chegue aqui bem pertinho que vou ajudá-la.
Num misto de nojo, medo e respeito, levantava, tapeava levemente os joelhos e entrava na cabine do confessionário, padre Aurélio fechava bem a cortina com um grampo, colocava-me entre suas pernas e acariciava meu pescoço esguio, meus cabelos negros e escorridos, minha boca rosada, minhas pernas longas e finas. Segurava-me pelos quadris ossudos e salientes, abraçava-me fortemente enquanto suava e gemia como se sofresse dor. Finalmente suspirava, beijava-me a face e dizia:
- Este é um pecado da carne, minúsculo para uma menina de sete anos, mas o suficiente para merecer o perdão de Nosso Senhor... vamos rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria: Pai nosso que ..., Ave Maria cheia de ....Amém . Vá em paz e que Deus a acompanhe.
Na pressa de ir embora, engolia o amém, saia correndo e gritando:
- Não precisa me acompanhar, vou sozinha... Vou sozinha...
A caminho de casa olhava para os lados, para cima, para baixo a fim de certificar-me da solidão. Esta, na verdade, era a única certeza que me acompanhava: O repúdio à salvação do céu e aos martírios do inferno. Por fim, o único alento que me conduzia era a lembrança do sabor doce e curativo das sobremesas.



Ato Final



I



No ultimo dia de minha vida

haverá um sorriso malsinado

atapetando-me a face

transito de alegrias fenecidas

e queixumes mazelados.



No olhar, um quintal de sílabas

com expressões ausentes

cristais exaustos de tempo

sem brilho suficiente.



As mãos convalescerão no colo

como duas rimas mortas

brancas, cálidas e frias...

livres de qualquer dizer.



II



Na alma, a embriagues do inverno

céu encoberto de lembranças

desapropriando enganos eternos.



III

No ultimo dia de minha vida

terei o perfume simplificado das palavras

em magias florescidas

o mais continuará nos poemas
em ilusões desmedidas...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Cena de Amor



Foi ali na soleira dos teus olhos
que debrucei a esperança dos meus
e ficamos a contemplar mistérios
que pousavam timidamente entre uma felicidade e outra...
O contentamento, mais que asa
eram céu e voo, alçando sorrisos primaveris.

Foi ali ao beber tua alegria que descobri:
todas as estradas são retas e florescem tempo
quando não se tem medo de morrer.
E o que é morrer, senão viver completamente?

Foi ali num abraço demorado
que as palavras se aquietaram e disseram adeus
num aceno de culpa e saudade,
numa promessa de infinito e silêncio.

Denise Reis

As Palavras não Ditas


As palavras não ditas
dormem nas ruas
aquecendo calçados,
entupindo bueiros,
povoando praças,
amarrotando jardins...
Seus exageros vocálicos
suplicam pontuação
na esperança de encontrarem limites...

A transparência de seus olhos vítreos
pedem gestos bondosos
que mudem seus tristes destinos;
quem sabe levando-as para casa e
acomodando-as na penumbra das gavetas
junto a antigos retratos,
para um dia soletrá-las; ou
usando-as como substrato de dores,
de rumores, de gritos,
da solidão que lateja
nas paginas brancas da vida...

Quem sabe pendurando-as na porta
para anunciarem a chegada do vento,
ou queimá-las na lareira
para aquecer os sonhos maculados pelo tempo.
O melhor seria inseri-las em poemas
pare que sintam a vertigem da métrica
a alegria e o perfume sonoro das rimas
que escorrem dos versos
quando encontram...os teus olhos...

Denise Reis

"A poesia é a lingua materna da Humanidade."HAMANN, J. G.

A poesia é a plenitude de tudo: do visível, do invisível, do intuitivo, do atemporal... É um enigma, um elo que une 2 realidades . É a criação pura do espirito, é a consciência da essência de todos os seres e coisas. A poesia é um instrumento de deleite e comoção, no sentido de conhecer, explorar e dignificar a si mesmo e todos os seres e coisas que nos rodeiam.
Não tenho uma base teórica, nem um determinado processo criativo , se é que existe um; as teorias tolhem , censuram o fazer poético . É clara a necessidade de não esquecer alguns princípios ( imagem, sonoridade, ritmo...) quanto mais recursos o poeta dominar maior será sua liberdade criativa.
Para o poeta a poesia é quase uma confissão de que para ele a vida não basta.O poeta precisa do imensurável , ele cria seres e coisas com os que já existem , em estado de poesia. Esta necessidade o exalta e o aniquila ao mesmo tempo, por ele ser múltiplo em si mesmo.
O que move o poeta não é a sua própria emoção mas o que resulta dela , o que chamamos inspiração e transpiração.
Acredito que a poesia seja uma espécie de antídoto para as emoções reacionais do poeta.
Sem pretensão , afirmo que papel do poeta é elevar a humanidade acima da verdade da ciência. O poeta é um ingênuo que desconhece os limites do impossível , ultrapassando assim as fronteiras da vida, da morte e do absurdo.